Feminino: Técnico do Santos vive 'prévia' da pandemia e supera câncer

Em abril do ano passado, Guilherme encontrou um nódulo no testículo e descobriu que tinha câncer.

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Em abril do ano passado, Guilherme encontrou um nódulo no testículo e descobriu que tinha câncer.

Santos, SP, 12 - O técnico do time feminino do Santos, Guilherme Giudice, superou um câncer durante a pandemia do novo coronavírus. O treinador até brinca ao dizer que viveu uma "prévia" da covid-19 porque já ficava em isolamento social em razão da baixa imunidade provocada pelas sessões de quimioterapia.

NOTÍCIA RUIM

Em abril do ano passado, Guilherme encontrou um nódulo no testículo e descobriu que tinha câncer. Realizou cirurgia em outubro e aparentemente estava tudo bem. Até que, em dezembro, ele percebeu um nódulo no pescoço. Os exames detectaram uma metástase decorrente do antigo tumor e acharam um outro nódulo no abdômen, entre os pulmões e o diafragma.

"Eu tinha uma viagem marcada com minha esposa e um casal de amigos no dia 23 de dezembro. No dia 21, percebi o nódulo e corri para o médico, que me avaliou e falou que poderia ser tudo. Ele disse: 'vai, viaja tranquilo e quando você voltar a gente vê isso'. Eu já imaginava, mas a confirmação veio em janeiro", contou o técnico de 36 anos, curado em julho depois de quatro meses de tratamento, em entrevista ao Estadão.

CONTINUOU COMO TÉCNICO

Apesar do diagnóstico, Guilherme permaneceu no comando do time feminino do Santos, mas chegou a perder alguns treinos e jogos. Começou a fazer quimioterapia em fevereiro, em meio à disputa do Campeonato Brasileiro. Saiu do médico e foi diretamente para a Vila Belmiro dirigir a equipe na partida contra o Cruzeiro, pela terceira rodada da competição.

Por causa da imunidade baixa, Guilherme adotou algumas medidas de proteção como usar agasalhos mesmo sem estar frio e manter certo distanciamento social. Naquela época, o novo coronavírus ainda parecia estar longe do Brasil.

"Mesmo com o início do tratamento, eu estava trabalhando normalmente. Continuei comandando os treinos e acompanhando a equipe, mas com algumas proteções. Eu usava roupa de frio naquele calor de Santos. É até estranho ver as fotos. Tinha que manter o distanciamento do pessoal. Tomava os cuidados para evitar pegar qualquer resfriado porque a imunidade baixa deixa tudo mais perigoso. E logo acabou chegando a pandemia. Eu até brinco que invadiram o meu isolamento", disse o treinador.

Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/ Santos FC
Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/ Santos FC

RECUPERAÇÃO

Guilherme partiu para São José dos Campos (SP), onde morava com a mulher, a filha e dois enteados. Focou 100% em sua recuperação e agora vive a expectativa da retomada do futebol feminino.

O elenco do Santos voltou a treinar no início desta semana e o Campeonato Brasileiro retornará no próximo dia 26. Após conversas com diversos profissionais, a prioridade é preparar a parte física das jogadoras.

"Conversei com o Bebeto (analista do masculino) e com o Pedro Bouças (auxiliar do português Jesualdo Ferreira, demitido na semana passada) porque eles voltaram antes e passaram como foi feito o trabalho. Nossa fisioterapeuta tem contato com o PSG (da França) e algumas jogadoras também conversam com outras atletas de clubes estrangeiros. Pegamos dicas para minimizar os problemas. O grande ponto é prepará-las para evitar lesão. Vamos focar bastante nessa parte e indo gradualmente, pensando na saúde para não colocar ninguém em risco", comentou o treinador.

EXPECTATIVA ALTA

O Santos venceu os quatro jogos que fez até agora e tem os mesmos 12 pontos da líder Ferroviária, que tem três gols a mais de saldo. O objetivo, claro, é manter o nível de atuação do começo do ano e brigar pelo título nacional.

"A expectativa é altíssima. O Santos é um dos cotados para o título, não só pela tradição que tem, mas por causa do trabalho que a gente vem desenvolvendo. Com certeza vamos lutar", disse, confiante, Guilherme, que era auxiliar de Emily Lima e assumiu como treinador após a demissão dela, em setembro do ano passado.

APOIO DAS JOGADORAS FOI FUNDAMENTAL

Durante o tratamento contra o câncer, Guilherme recebeu diversas mensagens de apoio das jogadores. Uma homenagem foi feita após ele ter de perder treino e o jogo diante do Grêmio, no Sul. As atletas deitaram no gramado e formaram o nome "GUI". O perfil da equipe no Instagram postou a imagem com a mensagem "Seguimos do seu lado nessa luta que, com certeza, você vencerá". As demonstrações de apoio também chegavam no WhatsApp do treinador.

"Talvez isso tenha sido o mais importante para mim. Apesar de eu ter falado que estava bem de cabeça e preparado para passar por isso de novo, é sempre complicado fazer quimioterapia, porque ela desgasta muito. Cada vez que eu recebia uma mensagem delas, tinha uma força maior. Elas sempre estiveram muito próximas a mim. Mesmo com a parada, quando cada um foi para sua casa, continuei recebendo mensagens. Me fortaleceram ainda mais. Elas foram especiais desde o início, serei eternamente grato", contou.