O pecado do silêncio e os covardes de hoje e amanhã

As lambanças do Itaquerão têm nome, sobrenome, RG e até CPF

por DALMO PESSOA - São Paulo

“Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar, transforma homens em covardes”.

Essa declaração não é de autoria de nenhum estúpido ou cretino fundamental, mas sim de Abraham Lincoln (1809-1865), 16º Presidente dos Estados Unidos. Ah como seria bom, e ajudaria muito, se o Conselho Deliberativo e os homens de bem do Corinthians ouvissem e aplicassem, acima dos fanatismos político-eleitorais, a verdade de Lincoln, para resgatar o prestígio e a grandeza de um clube, ameaçado de rolar na ribanceira da desmoralização com essa aventura do estádio, sem planejamento, compliance e pela falta de vergonha na cara de seus autores.

Os lambanceiros de Itaquera têm nome, sobrenome, sobrenome, RG, CIC ou CPF. Os nomes, que surgem nos documentos assinados nas negociações com BNDES, Caixa e Odebrecht, também conhecida como Odebrejo, estão bem claros e as assinaturas não são falsas: Mario Gobbi, Raul Correa da Silva e a tchurma da Arena Fundo, cuja sede não é no Parque São Jorge, e sim numa rua do Itaim, local que é um apêndice da Odebrecht.

Itaquerão está sempre cheio, mesmo assim a conta para a construção nunca parece ter fim
Itaquerão está sempre cheio, mesmo assim a conta para a construção nunca parece ter fim

QUEM APARECE NOS DOCUMENTOS
Nos documentos não constam os nomes de Andrés Sanches e Luís Paulo Rosenberg, mas o ex-presidente comandou todo o processo junto ao BNDES, Caixa e Odebrecht. Aliás, o próprio Andrés, mais de uma vez confessou:

“Quem fez toda a negociação fui eu, Lula e Emilio Odebrecht”.

Emilio, por sua vez, disse num depoimento da Lava-Jato que o Itaquerão foi um presente da empreiteira campeã do mundo da corrupção. Ora, ninguém contestou nada no Parque São Jorge. A covardia foi tanta que não seria surpresa se alguém se escondesse atrás dos armários do Parque São Jorge ou debaixo de uma cama. Ora, se o estádio foi presente por que o Corinthians pagou uma parte até agora?

Até agora, a diretoria, o Conselho Deliberativo, presidido por um ínclito desembargador, Dr. Guilherme Strengher, limitou-se, independentemente de uma auditoria, que nunca sai, a propor uma ação de obrigação de fazer – para terminar as obras faltantes – e questionar o overprice das obras do estádio.

É muito pouco e revela uma contradição, com providências dispares, pois o fundo Arena negociou um novo cronograma de pagamentos das dívidas ao BNDES, Caixa e Odebrecht. Ora, se você vai por outro caminho, embora tenha todo direito de fazê-lo, não é uma contradição?

AÇÃO DO CD E O CORI ?
Pelo menos, o presidente do CD se manifestou mas e o CORI? Só conversa mole e nada mais. O conselho conta com 81 ou um pouco mais disso de membros, que não são encabrestados e têm tido posições firmes e claras em defesa da legitimidade, da honra, dignidade e da moral do clube.

O resto só diz amém, por comprometimento ou por não entender nada do que está acontecendo depois que os lambanceiros fizeram as negociações do estádio. Claro que se sair os naming rights e esquentarem os títulos frios do ex-prefeito Kassab a situação pode até melhorar.

Enquanto isso, fez-se uma outra negociação – sem autorização do Conselho – todos sabem que salvo honrosas exceções, a turma aprova qualquer coisa porque são dependentes, lenientes e não entendem patavina do que pode acontecer.

Arquibancadas móveis na Copa do Mundo mostram que o Itaquerão já nasceu inacabado
Arquibancadas móveis na Copa do Mundo mostram que o Itaquerão já nasceu inacabado

A pauta de negociações, com alterações pontuais porque nenhum contrato fechado deixa de ser modificado na última hora, é a seguinte, de forma reduzida:

1. O Corinthians pagou a última prestação em novembro de 2016 porque não tinha caixa para pagar 5.700 mil / mês e queria carência idêntica à de outras arenas. Negociou uma redução da prestação, mas não se sabe se a redução caiu para 3.700 mil / mês porque não há nenhuma transparência.

2. Existe o resíduo do dinheiro não pago nos seis meses, mas o clube conseguiu também carência nos juros e amortizações nos seis meses de inadimplência, a partir de novembro passado.

3. Em 15 de abril, se nada for modificado, o Corinthians volta a pagar, mas dentro de um cronograma de pagamentos vinculados aos percentuais de receitas, a saber: 20% das receitas para pagamentos das despesas e 80% para amortização das dívidas. Em 2014, 2015 e no ano passado, o mínimo estipulado era de 30 milhões para custeio. Agora, se a arrecadação for de 90 milhões, vale a regra de 20% para as despesas dos jogos. Isto representa 18 milhões.

4. Este ano, da receita, 30% vão custear as partidas; da receita líquida de 70%, 20% vão para pagar despesas comerciais, comissões de terceiros (venda de camarotes), alimentação etc.Outros 28% são para pagamento de manutenção da arena, água, luz e etc. Do que sobrar é caixa para pagar o BNDES, via Caixa.

5 .Uma decisão é que da venda dos camarotes o clube tem que tirar as comissões das vendas dos lugares e assentos.

CUSTOS DE R$ 18 MILHÕES
Como enfrentar isso? Só a administração da Arena responde por 18 milhões do custo. Mesmo com borderôs de 30 mil torcedores será difícil chegar ao patamar de receitas de 97 milhões / ano nas bilheterias.

No começo da Arena, o tíquete médio chegou a 90 reais. Nos últimos jogos o tíquete foi de pouco mais de 50 reais. É preciso aumentar a média de público e do tíquete. Se não vai faltar dinheiro para cumprir o cronograma de pagamentos.

Se não der certo não acontecerá nada: o Conselho é omisso, subserviente e gosta de cabresto, exceção feita aos 81 que votaram na última reunião e outros que ainda vão se conscientizar da situação grave da Arena e pedir demissão do grupo dos covardes. Mas o silêncio dos covardes não tem fim.

DALMO PESSOA
Um dos mais importantes e polêmicos jornalistas esportivos do país, foi colunista do Notícias Populares, jornal de maior venda avulsa da capital por vários anos. Falando uma linguagem direta para o torcedor, ele era temido pelos dirigentes e pelos que pisavam no tomate. E Carlos Caldeira Filho,
Veja perfil completo
Veja todos