Calma, Maria Madalena: quem tem pecado não joga pedra

Lei Pelé, laundry, assalto às bases e a guerra das tevês

por DALMO PESSOA - São Paulo

“Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”, disse Jesus a um grupo de fariseus que queriam apedrejar Maria Madalena, acusada de prostituição. Como a maioria tinha culpa no cartório da vida, ninguém se atreveu a praticar o exercício arbitrário das próprias razões – e a mulher escapou da fúria de seus algozes.

E por que recorremos àquela lição? Porque hoje, no futebol, não são todos que podem atirar a primeira pedra, sobretudo porque os catões também cometem seus pecados e pecadilhos. E o futebol é vítima disso.

SUSPEITA DE LAVAGEM
Agora descobriram que existe lavagem de dinheiro no futebol. E a bola da vez, com muita sutileza dos catões é o Palmeiras e seu milionário patrocinador. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas se hoje alguns que levantam suspeitas, cabe às autoridades apurar e punir a quem de direito.

Aliás, o Palmeiras viveu a lavagem de dinheiro da Parmalat. Os que colocam a voz de seu coração como torcedor nas suas opiniões nunca disseram um pingo de verdade por trás daquilo que a Parmalat fazia, não só aqui mas em alguns países da América Latina e até na própria União Soviética.

Certa vez, num jantar com Luís Gonzaga Belluzzo – o homem que trouxe o leite para o Palestra Itália, com apoio de um sobrinho de Delfim Neto, perguntei-lhe porque, mesmo com a saída da Parmalat, o balanço do Palmeiras acusava um débito de 100 milhões – e no balanço da Palmeiras S.A. – parte do esquema, mais o uso do próprio Paulista de Jundiaí para acerto de caixa – a Sociedade Esportiva Palmeiras se creditava em 100 milhões no caixa da Turiaçu.

VOU TIRAR...
A resposta que Belluzzo me deu foi esta: “Vou tirar isso do balanço do Palmeiras”.

Se tirou é porque era uma operação irregular, passível de investigação pela CVM – Comissão de Valores Mobiliários – e Receita Federal.

Assim, o Palmeiras ganhou títulos importantes, sofreu uns três desmanches porque os italianos queriam só movimentar e aumentar o dinheiro. Resultado final: Gianni Grisendi, o homem do leite lavado no Brasil, foi condenado pela Justiça, mas como nossas leis são boazinhas, ele não precisou cumprir a pena. Já Calisto Tanzi, o dono do leite da laundry puxou cana brava na Itália. Lá não tem moleza. O leite sujo custou caro a Calisto Tanzi.

J.Hawilla dedurou todo mundo
J.Hawilla dedurou todo mundo
O Corinthians também passou por experiências ruins. Teve diretor que quebrou um banco; veio a Hicks Muse, com um texano de botas de cano alto, comprou a empresa de J. Hawilla – que ficou milionário, e o Corinthians se aproveitou da montanha de dólares. O projeto de Dick Law, com o dinheiro de um fundo de aposentados dos EUA, era derrubar a Globo e ficar com todos os contratos de tevê.

E ele já tinha a PSN – uma televisão que no fim também quebrou. Law perdeu as botas de cano alto no Parque São Jorge e devolveu a empresa a J. Hawilla pela “assombrosa” quantia de um dólar. Hoje, Hawilla é personagem do FBI e enfeita um de seus pés com tornozeleira eletrônica. O Vasco também entrou na lavanderia, mas, espertamente, pegou o dinheiro, gastou no time e não se sabe se pagou alguma coisa.

VERGONHA NO PARANÁ
O que aconteceu domingo em Curitiba, quando Atlético e Coritiba não quiseram jogar por causa da transmissão de tevê é uma vergonha. A briga é de foice no escuro. E os espertos são a Globo, Interativo, ESPN, FOX, etc.

Mas o Corinthians ainda entrou em outra fria: a MSI. Ganhou título, é verdade. Mas quando Kia Joorabchian foi embora, deixou uma conta de 60 milhões de reais no Parque São Jorge. Ele ganhou muito dinheiro e arrumou sócios mais fortes, um deles passou pelo Parque São Jorge. Recentemente

Boris: russo poderoso no Timão
Boris: russo poderoso no Timão

Kia tinha também um sócio, russo: Boris Berezovski. Seu plano era investir em petróleo e etanol aqui. Morreu misteriosamente em Londres. O futebol também sofreu um assalto aos seus ativos com a Lei Pelé.

Uma falsa esquerda etílica e burra, com recall da ditadura, cunhou um bordão: “jogador é escravo do clube”. Ora, eles já tinham 15% nos passes. Era importante um liberô geral. O Corinthians, por exemplo, vendeu Marquinhos por 5 milhões, depois de colocá-lo na seleção sub-20, e seu passe foi vendido ao Paris Saint Germain por 35 milhões de euros.

O Corinthians ajudou o futebol francês, enriqueceu ainda mais seu empresário, e os idiotas midiáticos acham que foi bom negócio.

E incrível que pessoas com boas posições políticas e ideológicas se transformem em bajuladores e colaboram, com essa diáspora que está aí, a fortalecer o futebol internacional. É o capitalismo, companheiro. É, sim. Mas ninguém precisa ser sabujo.

Esperamos que a Lava-Jato entre nesse circuito. Se na casa do Pai Celestial existem muitas moradas, a morada de Sérgio Moro, na fria Curitiba, tem espaço pra muita gente. É só a Odebrejo, ou melhor, a Odebrecht, com seu chefão Emilio e seu distribuidor de propinas, Alexandrino Alencar resolverem falar.

Ou será mesmo que Emilio Odebrecht deu o Itaquerão de presente ao corintiano Lula? Se isso é verdade, não paguem mais nada à Caixa e ao BNDES, não é mesmo?

Quem diria, hein? O futebol 5 vezes campeão do mundo virou caso de polícia. Marin está no predião de Trump, nos EUA, Marco Polo Del Nero é o proscrito de Zurique e não vai nem a Itaquera. Vai que o japonês da Federal aparece por lá?

NEYMAR É ACUSADO
A última e mais escandalosa lavagem é de Neymar, conforme sugerimos aqui. O pessoal não é fácil.

Neymar é acusado na Espanha. Ganha milhões, por quê sonegar impostos?
Neymar é acusado na Espanha. Ganha milhões, por quê sonegar impostos?

Pegaram 10 milhões de euros, um ano antes da venda de seu passe, e no jogo contra o Barcelona, Neymar tirou o seu rico pezinho. Afinal, 10 milhões de euros são 10 milhões.

A negociata recebeu o apoio da maioria da imprensa. A diretoria do Santos fechou os olhos a tudo. Afinal o Santos tinha banqueiros e grandes empresários no seu comando. As hienas sabem onde encontrar a carniça nova.

E assim caminha o nosso futebol: vítima da Lei Pelé, prato cheio para quem lava dinheiro, empresários que sugam o sangue do nosso futebol e estão cada vez mais ricos. Tomaram de assalto a base dos clubes. A base do Corinthians vale mais do que um poço de petróleo da Arábia Saudita. E as máfias não param.

E, você, Maria Madalena, não se preocupe. Os fariseus não atiram pedra, segundo a lição de Jesus, porque eles também pecaram. Mas ninguém escapará do tribunal de sua própria consciência.

DALMO PESSOA
Um dos mais importantes e polêmicos jornalistas esportivos do país, foi colunista do Notícias Populares, jornal de maior venda avulsa da capital por vários anos. Falando uma linguagem direta para o torcedor, ele era temido pelos dirigentes e pelos que pisavam no tomate. E Carlos Caldeira Filho,
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