ídolo do Taubaté, Rodrigo Soares relembra título paulista da Série A3 de 2015

Segunda conquista alviazul no terceiro escalão estadual completa cinco anos neste domingo, 31 de maio

por Agência Futebol Interior

Taubaté, SP, 31 (AFI) - O dia 31 de maio de 2015 é um dos mais importantes na história (mais do que centenária) do Esporte Clube Taubaté. Afinal de contas, há exatamente meia década, o Burro da Central conquistava o Campeonato Paulista da Série A3 de 2015.

Aquele título tem uma grande representatividade entre o torcedor alviazul por diversos motivos. O primeiro deles: a equipe valeparaibana colocava um ponto final a um período de 12 anos sem ser campeão - em 2003, vencera a própria Série A3.

Segundo: ajudou a encerrar um dos piores períodos na história taubateana - vice-campeão da Série A2 de 2004, acumulou rebaixamentos consecutivos, em 2007 e 2008, e foi parar na Segundona Paulista, da qual saiu com acesso, em 2009.

Terceiro: pela primeira vez, o Burrão foi campeão em casa, no estádio Joaquim de Morais Filho, o popular Joaquinzão, inaugurado em 14 de janeiro de 1968, substituindo o Campo do Bosque, a antiga casa alviazul.

Quarto: a taça foi alcançada de maneira épica sobre o Votuporanguense, com vitória por 4 a 0 na volta, após derrota por 3 a 0 no primeiro encontro. Na história taubateana, talvez, apenas o título paulista do Interior de 1942 seja comparável nesse sentido - na ocasião, o clube do Vale do Paraíba perdera, em Bauru, por 4 a 0, mas reverteu o placar sobre o Luzitana ao anotar 7 a 0, no Campo do Bosque.

Taubaté comemora o título paulista da Série A3 de 2015 - Foto: Bruno Castilho | EC Taubaté
Taubaté comemora o título paulista da Série A3 de 2015 - Foto: Bruno Castilho | EC Taubaté
CONTA PRA GENTE!
Por isso, o Portal Futebol Interior conversou com Rodrigo Soares. Um dos destaques do Taubaté daquela temporada, o polivalente jogador, que atuava como lateral, volante ou meia, soma 56 partidas e três gols marcados com a camisa alviazul. Ele chegou ao Joaquinzão durante a pré-temporada para estar no elenco do técnico Edson Vieira.

"Diferente da maioria do elenco, um empresário me indicou ao Gilsinho (gerente de futebol) através de DVD. Ele gostou e indicou pro Edson, que deu uma avaliada, e agradei. Pode-se dizer que fui uma das poucas apostas do clube. Eu vinha de um ano complicado no Grêmio Barueri e confiei no projeto do Taubaté. Rolavam uns boatos de que ia montar um time forte. Pesquisei sobre o Edson, vi que tinha subido o São Bento e teriam jogadores que estavam nesse acesso de 2013. Vi que o plantel era bom, o time era bom. Por ser de uma cidade grande, de tradição, completara o centenário em 2014, tudo isso me motivou bastante. Esses pontos colaboraram demais".

TRABALHANDO
Durante a pré-temporada, o Juventus, que contava com o atacante Gil, ídolo do Corinthians e com passagem por clubes como Cruzeiro, Internacional e Flamengo, era apontado como o grande favorito a um dos quatro acessos.

Taubaté comemora o título paulista da Série A3 de 2015 - Foto: Bruno Castilho | EC Taubaté
Taubaté comemora o título paulista da Série A3 de 2015 - Foto: Bruno Castilho | EC Taubaté
O Taubaté, porém, também era visto como um forte candidato. Em meio a isso, Rodrigo Soares, que tinha sido anunciado como meia, começava a ganhar espaço como lateral-esquerdo no elenco de Edson Vieira.

"Eu tinha jogado junto com o Fandinho, zagueiro, no Barueri, mas eu não sabia que ele iria; com o Peterson, atacante, no Palmeiras B, que acabou não tendo uma participação muito grande, mas era um baita jogador; e com o Willian, volante, no começo da carreira, no Linense. Contra, tinha enfrentado muitos dali. Nos primeiros treinos, já vi que, além de ser um bom time, a gente tinha se unido, fizemos uma grande parceria. Foi um dos maiores diferenciais. Minha posição de origem sempre foi meio-campo. Mas, pelo meu vigor físico, muitos técnicos me colocavam na lateral esquerda, só que eu não gostava muito. O Edson sentiu uma carência na posição, me testou e me ensinou a jogar por ali, me fez sentir confortável. Depois, joguei em diversas posições e me sentia confortável, o importante era saber que estava ajudando a equipe".

INÍCIO DA CAMPANHA
Sob enorme expectativa da torcida alviazul, o Taubaté começou a campanha com uma vitória importante, em Indaiatuba, no Ítalo Mário Limongi, por 2 a 1, sobre o Primavera, que lutaria pelo acesso até o final. Depois, em casa, goleada por 4 a 1 sobre a Francana, que acabaria segurando a lanterna entre 20 equipes.

"Desde o início, a gente era um dos cotados ao acesso. Esses primeiros jogos deram um gás, confirmaram o projeto, que iria brigar dentro do campeonato".

TURBULÊNCIA
Depois de um grande início de Série A3, porém, o Burro da Central ficou sem vencer entre a terceira e a oitava rodada. Na sexta, inclusive, empate, em casa, para o arquirrival São José, que vivia uma profunda crise por conta de problemas financeiros.

Já na sétima, derrota, fora, por 1 a 0, contra o Grêmio Osasco, resultado que levou à saída de Edson Vieira. Na oitava, o time acabou sendo comandado, de forma interina, pelo gerente de futebol, Gilsinho, mas perdeu, no Joaquinzão, por 3 a 2, para o Juventus.

"Foi uma sequência que gerou algumas dúvidas para algumas pessoas. Dentro do nosso time, a gente sabia que tinha capacidade, era uma questão de ajustar. Esse começo foi importante pra identificar o que faltava, o que precisava para a gente emplacar. Mas foi, sim, o período mais conturbado que a gente teve, jogava bem e não conseguia a vitória. Teve o Clássico do Vale, havia toda uma cobrança por conta dos cenários distintos. Depois desse jogo, ficou complicado para o Edson, mas a gente seguia acreditando. Foi até um pouco surpreendente a saída dele depois do jogo com o Osasco, porque já estávamos focados no Juventus. Eu já falei mais de uma vez e vale repetir: o Edson tem muito mérito no título. Embora não tenha ficado para o título, ele quem montou aquele elenco. Ele é um baita técnico. Para mim, o melhor que eu já tive. Contra o Juventus, fizemos um bom jogo, mas era nítido que eles estavam um nível acima naquele momento. Atingiram um ápice muito rápido. Depois, eu até esperava uma final deles. Mas fizemos um bom jogo".

SUBINDO ATÉ A CLASSIFICAÇÃO ANTECIPADA
A diretoria taubateana, então, apostou na contratação do técnico Ito Roque, que vencera a Série A3 de 2011 com o Penapolense. Ele estreou fora de casa, em Guarulhos, no Antônio Soares de Oliveira, com vitória por 2 a 1.

Troféu do Paulista da Série A3 de 2015 - Foto: Bruno Castilho | EC Taubaté
Troféu do Paulista da Série A3 de 2015 - Foto: Bruno Castilho | EC Taubaté
Depois, o Burro apresentou uma oscilação até a 15.ª rodada, quando iniciou uma sequência de quatro vitórias consecutivas, as quais permitiram a classificação antecipada na penúltima rodada, com o 2 a 0 diante do São José dos Campo, atual Joseense, fora de casa, no Martins Pereira.

"O Ito chega com um bom time, já unido. Ele fez um grande trabalho, complementou o que o Edson vinha fazendo. Chega vencendo o Flamengo e dá uma tranquilizada vencendo o Atibaia. Para mim, essa partida contra o Votuporanguense, que abriu a série de vitórias, é chave na campanha. Se a gente perdesse, podia brigar na parte debaixo. Eles estavam muito bem. Ganhamos e convencemos. Engatamos no campeonato. Embora houvesse o receio do rebaixamento, o time correspondeu. Contra o São José dos Campos, eu estou suspenso pelo terceiro amarelo, mas teve um gostinho maior por todo o contexto do Vale do Paraíba".

RUMO AO ACESSO
A boa fase continuou por mais um longo período. Fechando a primeira fase, empate com o Nacional. A seguir, já pelo quadrangular que daria dois acessos e uma vaga à decisão, vitórias para cima de Primavera, fora, por 1 a 0, e Barretos, em casa, por 2 a 1.

Encerrando o primeiro turno, o Taubaté ficou no 2 a 2, em pleno Joaquinzão, com o Atibaia. Dessa forma, o Burro visitou o Falcão, em Indaiatuba, precisando de um simples triunfo para garantir o acesso. De novo, outro empate; dessa vez, sem gols.

"A gente vinha fazendo as contas para subir, em um quadrangular, você monta uma estratégia, tínhamos vencido dois deles, empatado apenas com o Barretos. Então, criamos uma meta. Mas vínhamos numa sequência tão boa, que nos sentíamos muito confiantes. Nos preocupávamos mais com a gente do que com os outros. Esse segundo empate com o Atibaia deu um certo receio, foram amargos".

ESTRATÉGIA E ACESSO
O segundo turno da segunda fase, aliás, foi disputado em um intervalo de apenas uma semana, entre 10 e 17 de maio. Por isso, na quinta rodada, Ito Roque optou por mandar uma equipe praticamente reserva ao estádio Fortaleza.

O Taubaté enfrentaria o Barretos na quinta-feira, 14, um dia depois de Primavera e Atibaia, duelo que, se acabasse empatado, daria o acesso aos taubatenos de forma antecipada. O Falcão, porém, venceu por 2 a 0.

Assim, o cenário do confronto do Burro com o Touro era simples: os visitantes subiriam com um simples empate e avançariam à decisão com uma vitória, enquanto os donos da casa carimbariam um lugar na Série A2 de 2016 em caso de triunfo.

"O grupo era muito bom, e o Ito cria essa estratégia para se precaver. A distância entre Barretos e Taubaté é muito grande, o tempo para descanso seria pequeno. Se precisasse decidir em casa, estaríamos mais inteiros. Embora a gente não esperasse, a gente confiava muito nele e nos jogadores que viajaram. Claro que o jogador quer estar em todas as partidas, mas respeitamos a decisão. Mostramos que o elenco era muito bom, vencemos o Barretos, fora de casa, 1 a 0, gol do Thiago Vianna, consumando o acesso. Acompanhei a partida pelo rádio, uma rádio de Barretos, foi muito sofrimento, mas deu muito certo. Comemoramos entre os que tinham ficado em Taubaté, pegamos o carro, fomos para o bar Barril do Zé Bigode, comemoramos com alguns torcedores. Fizemos uma baita festa. Depois, pegamos o Primavera para fechar a segunda fase, ganhamos e garantimos a decisão dentro de casa. Fizemos uma grande campanha, pegamos muita confiança".

Rodrigo Soares considera o time de 2016 o melhor como qual jogou no Taubaté, mas elegeu o de2015 como o mais marcante - Foto: Bruno Castilho | EC Taubaté
Rodrigo Soares considera o time de 2016 o melhor como qual jogou no Taubaté, mas elegeu o de2015 como o mais marcante - Foto: Bruno Castilho | EC Taubaté
A DECISÃO!
Para surpresa de muitos, o adversário na final foi o Votuporanguense, que, no somatório das fases, tinha campanha inferior. Portanto, a decisão aconteceria em Taubaté. Na ida, porém, o Burro fez uma de suas piores partidas - talvez, a pior - e saiu derrota por 3 a 0. Assim, só seria campeão devolvendo a mesma diferença. No final das contas, vitória por 4 a 0, em dia de muita chuva em Taubaté, e segundo título paulista da Série A3.

"Todo mundo esperava o Juventus na final, mas eles vacilaram um pouco. Vamos para cima do Votuporanguense com toda a seriedade, mas fomos abaixo do normal. Não acredito que o estilo de jogo adotado, um pouco diferente do vínhamos usando, tenha tido tanta influência. Foi um dia fatídico, não acredito que alguém esperasse. São fatalidades. A semana da finalíssima não foi tão tensa, a gente sabia da responsabilidade, tinha que vencer o jogo, pelo menos, mostrando muita entrega e dedicação. Sabíamos que não seria fácil. Eu tinha convicção da vitória, mas não sabia se com o placar necessário. Saber que poderíamos ser os primeiros a ganhar o título no Joaquinzão foi algo muito motivante. Queríamos marcar nosso nome. O Ito passou muita confiança, fez uma palestra muito motivacional. Foi uma semana leve, fizemos um coletivo sensacional pouco antes da partida. Conseguimos fazer uma baita partida, construir aquele baita resultado. O acesso era o maior objetivo, mas, com título, é mais gostoso, mais marcante, mais glorioso. Um é objetivo; outro, a cerejinha do bolo".

LEGADO
Ele ainda permaneceu no Joaquinzão por longo período. Disputou o Campeonato Paulista da Série A2 de 2016, 2017 e 2018 e da Copa Paulista de 2017, conseguindo outra grande campanha - no retorno à A2, o Burro chegou às quartas de final.

Nas competições seguintes, já sem Rodrigo Soares, o Taubaté seguiu acumulando momentos positivos. Foi às quartas de final da Copa Paulista de 2018 e do Paulista A2 de 2019 e à segunda fase da Copa Paulista de 2019.

"Particularmente, no Taubaté, acredito que o melhor time que participei tenha sido o de 2016, que ficou perto do acesso ao Paulistão. Tínhamos um grupo excelente. Mas o time que é mais lembrado é o que atinge os objetivos, futebol é feito de vitórias e conquistas. Nem sempre o melhor é o mais lembrado. Então, o que fica na memória é aquele de 2015, que conseguiu um grande feito. Isso é muito legal. Fico muito orgulhoso. Acredito que fiz história, fiquei muitos anos, passei dos 50 jogos pelo clube. É motivo de orgulho. Todo mundo sabe que eu amo o Taubaté, é o clube mais importante da minha vida, tenho muito carinho. Fui muito feliz, guardo muitas lembranças, fiz muitos amigos. Talvez seja a minha maior conquista: estar marcado em um clube de uma maneira tão positiva".

Rodrigo Soares (e) e Alan Mota (d) passaram dos 50 jogos pelo Taubaté  - Foto: Bruno Castilho | EC Taubaté
Rodrigo Soares (e) e Alan Mota (d) passaram dos 50 jogos pelo Taubaté
APOSENTADORIA E ATUAL MOMENTO
Logo depois da Série A2 de 2018, Rodrigo Soares se aposentou dos gramados com apenas 25 anos. Ele explica.

"Tenho curtido muitas coisas que o futebol, às vezes, não permite, que são os amigos, a família, a namorada. A gente acaba vivendo tão intensamente a vida no futebol, que não permitem viver coisas simples. Cheguei em uma fase da vida em que precisava disso. Agora, sou um estudante universitário de administração de empresas, jogo bola pela faculdade e estou trilhando outro caminho, trabalho com incorporação de imóveis. Vejo que consigo fazer outras atividades. Muitas vezes, a gente e o entorno do jogador acham que ele só sabe fazer aquilo. Todo mundo tem muitas qualidades, tenho muitos outros sonhos. Sou muito realizado com o futebol, conquistei muito, devo muito ao futebol. Foi uma fase extraordinária. Tem memórias ruins, mas prefiro guardar as boas, guardo com muito carinho. Continuo jogando bola, e ter uma vida nova é muito gratificante. Temos que olhar para frente e seguir os novos caminhos".