Portuguesa, Juventus e Nacional: o futebol que São Paulo não respira

Times estão longe dos holofotes e sofrem para sobreviver, diferente de Corinthians, São Paulo e Palmeiras

por Gustavo Porto

São Paulo, SP, 20 (AFI) - Esqueça Campeonato Brasileiro, Libertadores e muito dinheiro no meio. Esqueça craques e jogadores badalados. Esqueça Arenas e gramados perfeitos. O que Portuguesa, Juventus e Nacional, times importantes e da Grande São Paulo passam, está longe de ser o ideal. Com pouco dinheiro, mas muita tradição e charme, eles tentam sobreviver do jeito que dá e longe dos holofotes — tanto da mídia, como das torcidas.

Portuguesa e Juventus disputam o Campeonato Paulista da Série A2. Ambos estiveram bem próximos da zona do rebaixamento, mas o peso das camisas falou mais alto e eles conseguiram se recuperar. Há uma rodada do fim, o Moleque Travesso ainda sonha com a classificação à próxima fase, mas precisa de um milagre. Já a Lusa não briga pelo acesso à elite do futebol paulista, e ainda chega à última rodada precisando vencer para não correr o risco de ser rebaixada.

Enquanto isso, o Nacional está em uma divisão inferior, na Série A3 do Paulista. O Naça, que manda seus jogos no estádio Nicolau Alayon, na zona oeste da capital, terminou a primeira fase no sexto lugar e agora briga com o Rio Branco para se classificar à próxima fase. O possível acesso pode ser um alento a um dos times mais tradicionais do Estado.

Entretanto, os três clubes não vivem apenas de bons momentos. Tirando a Portuguesa, que possui um CT bom comparado a outros clubes, Juventus e Nacional sofrem com a falta de estrutura – principalmente de campos para treinar, e com a falta de recursos.

POUCO DINHEIRO
Diferente do Campeonato Paulista da Série A1, no qual o campeão leva R$ 5 milhões de premiações, nas outras divisões o valor é bem inferior. Na Série A2, competição em que Juventus e Portuguesa estão, o campeão leva apenas R$ 280 mil, enquanto o vice-campeão fica com R$ 170 mil. Terceiro e quarto colocado levam, respectivamente, R$ 120 e R$ 110 mil. Moleque Travesso e Lusa receberam entre R$ 450 mil a R$ 1 milhão por serem remanescentes da temporada passada. A classificação na última edição conta na hora de dividir o valor

Juventus sonha com o G4 para receber premiação maior (Foto: Ale Vianna/CA Juventus)
Juventus sonha com o G4 para receber premiação maior (Foto: Ale Vianna/CA Juventus)

Na Série A3, o dinheiro é ainda menor. O campeão leva R$ 110 mil, enquanto o segundo colocado fatura R$ 77 mil. Para o primeiro time fora da zona do rebaixamento, no caso o Noroeste, a premiação é de apenas R$ 6 mil, valor que não paga o salário de um “futuro craque” nas categorias de base dos times grandes. Os dados de premiações nas divisões são da Federação Paulista de Futebol (FPF).

Sem a vaga no G4, a Portuguesa ainda não sabe o valor da premiação que receberá já que está brigando para não ser rebaixada. De qualquer maneira, o dinheiro servirá para a diretoria tentar se organizar para a Série D e para o estadual da próxima temporada. O Moleque Travesso, que ainda sonha com a classificação, pode receber até R$ 110 mil de premiação para montar um elenco mais forte. O Juventus não disputa nenhuma competição da CBF no segundo semestre, apenas a Copa Paulista.

ESTRUTURA MÍNIMA
Enquanto São Paulo, Corinthians e Palmeiras possuem CTs de alto nível, com academia da mais alta qualidade, departamento médico e fisiológico de primeira, entre outras coisas que fazem diferença em uma temporada longa no futebol brasileiro, Portuguesa, Nacional e Juventus sofrem. Com pouco dinheiro, os três clubes possuem estrutura mínima e se viram do jeito que é possível.

Nacional e Juventus não possuem campo de treinamento ou CTs luxuosos. Pela falta de espaço na cidade de São Paulo e também por ambos os clubes não terem terrenos grandes próximos da Javari e do Nicolau Alayon, ambos treinam onde mandam seus jogos. E isso acaba sendo prejudicial, principalmente porque o estado do gramado acaba sendo afetado.

Nicolau Alayon fica na Zona Oeste e é a casa do Nacional
Nicolau Alayon fica na Zona Oeste e é a casa do Nacional

“Treinar na Javari, ficar ali, os jogadores comem ali. Estrutura não falta em nada, mas é o básico. O que falta, pra mim, é campo para treinar. É a maior dificuldade nossa. São Paulo, Corinthians e Palmeiras dificilmente arrumariam campo para treinar se não tivessem o CT”, afirmou Wilson Júnior, técnico do Juventus.

Tuca Guimarães, treinador do Nacional, endossou o coro dizendo que o clube tem uma estrutura boa, mas CT e campo para treino pesam na hora decisiva de uma competição importante, como é a Série A3.

“A maioria dos clubes tem dificuldades em relação a CT e treinam no campo de jogo, mas a nossa estrutura é boa. É um diferencial considerável. Concentramos em hotel bom, temos viagem de primeiro nível, alimentação de primeiro nível. O clube se preparou para disputar a divisão e chega forte para a reta final”, analisou.

A Portuguesa destoa um pouco dos dois “irmãos” da capital. Com um CT no Parque Ecológico, a Lusa possui seis campos de treinamento que ficam ao lado do CT do Corinthians. Para o técnico Estevam Soares, apesar de a estrutura do clube ser boa, a Portuguesa ainda carece de muitas melhorias.

“Temos um belo CT, temos estádio, hotel simples. Claro que não é o mesmo patamar dos grandes da cidade, mas a estrutura é muito boa, mesmo quando se treina no Canindé. Hoje, o futebol da Portuguesa carece de muitas melhorias. O departamento de fisiologia, departamento médico… Tem o básico para se poder trabalhar”, disse.

FALTA DE MÍDIA
Em divisões inferiores e longe dos grandes campeonatos, a cobertura por parte da mídia também é diferente daquela feita com os grandes da cidade. E isso impacta em renda, número de torcedores e vários fatores que poderiam contribuir para os clubes crescerem ainda mais.

“O clube que tem TV regional fica mais próximo da torcida. Sinto que aqui falta informação. Com mídia escrita e TV, o torcedor teria mais acesso, iria se familiarizar mais com o clube. O clube perde por falta de visibilidade. Você vai em Ribeirão Preto e tem uma mídia muito forte para Botafogo-SP e Comercial. A mídia regional faz falta, principalmente na situação financeira do clube”, analisou o treinador.

Portuguesa ainda tem mais visibilidade que Nacional e Juventus, mas nada comparado a Corinthians, São Paulo e Palmeiras
Portuguesa ainda tem mais visibilidade que Nacional e Juventus, mas nada comparado a Corinthians, São Paulo e Palmeiras

No Nacional, o técnico Tuca Guimarães disse que realmente pesa um pouco a falta de cobertura aos times de menos visibilidade de São Paulo. Entretanto, o treinador acredita que, quando o Naça chegar a uma divisão maior, não vai ter problemas em atrair a atenção da mídia esportiva.

“São sessenta clubes nas três divisões (do Estado de São Paulo). É difícil para cobrir todos. Mas o Nacional, a hora que subir de divisão, vai ser (bastante requisitado). É um clube charmoso, tradicional e está em um local bom da cidade. Estamos trabalhando para conquistar o acesso este ano”, falou Tuca Guimarães, bastante otimista.

Por outro lado, Estevam Soares não tem enfrentado esses problemas na Portuguesa. Mesmo o clube estando na Série A2 Paulista e na Série D do Campeonato Brasileiro, o comandante ainda vê uma cobertura boa da mídia, mas sabe que o clube precisa se arrumar para que as coisas melhorem ainda mais.

“A Portuguesa, mesmo em baixa como está, tem os holofotes muito alto. Tivemos uma sequência boa de vitórias e tivemos várias entrevistas, muito apelo. O clube está em situação difícil, mas o nome ainda existe apesar das divisões que está disputando. Quando começa a ganhar, ter sequência boa, tem assédio muito grande por parte da imprensa e da torcida, que ano retrasado colocou 22 mil pessoas no Canindé. Então é só encaminhar que a resposta vem. Agora, é questão de se arrumar”, ponderou Estevam Soares,

MESMA PRESSÃO
Nem mesmo o fato de estarem longe da elite do futebol paulista, Nacional, Portuguesa e Juventus têm menos pressão que os outros três grandes da capital. Muito pelo contrário. Às vezes, a pressão para buscar o resultado e levar o time à primeira divisão do futebol estadual é ainda maior.

Torcida do Juventus costuma lotar a Rua Javari
Torcida do Juventus costuma lotar a Rua Javari

“É impressionante a força da torcida na Javari. A torcida é apaixonante. Os sócios são apaixonados, a Mooca é diferenciada. Eu moro aqui para saber do Juventus, viver o Juventus. Nos jogos, vem bastante gente. A torcida do Juventus é fiel e faz muita pressão pelos resultados”, afirmou Wilson Júnior, que fez questão de se mudar para próximo da Rua Javari para ficar ainda mais acostumado com o clima.

Para o técnico Tuca Guimarães, que está no Nacional, mas que trabalhou na Portuguesa nesta temporada, a principal diferença para os dois clubes é a tranquilidade para trabalhar. O treinador credita o sucesso do Naça à falta de problemas extracampo. Diferente do que acontece na Portuguesa, que não tem tranquilidade fora das quatro linhas.

“A diferença fundamental da Lusa para o Nacional é a parte para trabalhar. Lá tem muitos problemas políticos que são levados para campo. Acaba pressionando antes das coisas acontecerem. Acabei brigando para entrar no G4 e, antes do jogo, a torcida pegando no pé em função de questões políticas. Aqui tem tranquilidade para trabalhar. Posso falar bem dos dois clubes, e o Nacional estará melhor em um futuro próximo”, disse o treinador.

HÁ ESPERANÇA...
Portuguesa, Nacional e Juventus não possuem milhões que nem Corinthians, Palmeiras e São Paulo. Não possuem CTs de primeiro nível, não disputam competições super valiosas e estão longe da elite do futebol brasileiro. Nem por isso são clubes que não mereçam a atenção da mídia e da torcida.

Longe do futebol que São Paulo respira e vive diariamente, Portuguesa, Nacional e Juventus tentam se manter vivos em meio a dívidas, campos ruins e falta de estrutura. Três clubes charmosos e queridos pelos paulistanos, e que sonham em, um dia, ter o respeito e a visibilidade que Corinthians, Palmeiras e São Paulo possuem diariamente.

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